domingo, 26 de outubro de 2014

Artigo de Paulo Afonso Linhares

DOIS BRASIS

Paulo Afonso Linhares

É intensa a guerrilha dos jovens eleitores nas mídias sociais, partidários de Dilma Rousseff ou de Aécio Neves, numa faina diuturna e repetitiva em que não faltam desde algumas tiradas de bom humor até os raivosos, virulentos e agressivos ataques aos candidatos, seus apoiadores e instituições a eles vinculadas. Em sua maioria, são jovens entre dezoito e vinte e cinco anos. Sem trocadilhos, nessa faixa de idade são comuns as necedades, os arroubos e os discutidos tanto na linguagem quanto tocante às regras da boa educação. Ressalte-se, porém, que, em razão de um feixe de complexos fatores sociais, políticos e econômicos, um clima eletrizante tomou de conta do segundo turno da  eleição presidencial de 2014, disputada por Dilma Rousseff como representante de um conjunto de forças de centro-esquerda, de um lado, e por Aécio Neves, que capitaneia enorme bloco político de centro-direita, impondo  à cena política uma dinâmica inusitada de um renhido confronto político e ideológico que tem plasmado a atenção da sociedade brasileira como um todo, não apenas de sua juventude.

São dois Brasis que se confrontam, ou melhor, os dois esboços dos projetos de Estado-nação construídos depois da implantação da ordem constitucional de 1988, um como tradução do rearranjo feito pelas elites no rumo da modernidade, tendo como pano de fundo a hegemonia de uma ampla aliança de forças conservadoras, porém, sob a liderança de um partido político talhado nos moldes da social-democracia europeia. Assim, coube ao Partido da Social-Democracia Brasileira - PSDB, representar este papel, eis que nasceu sob os auspícios de algumas das lideranças políticas mais expressivas da oposição à Ditadura Militar, a exemplo de André Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Richa, José Serra etc.

O outro foi traçado partir da junção do que restou das forças de esquerdas destroçadas no enfrentamento militar contra a Ditadura (1964-1985), dos movimentos sociais ligados à Igreja Católica (as comunidades eclesiais de base) e o vigoroso movimento sindical do ABC paulista que resultou da superação das estruturas do sindicalismo pelego implantadas há sete décadas, tendo como acontecimento mais relevante a fundação do Partido dos Trabalhadores, na mesma linha do Bloco Operário e Camponês que, em 1928, participou com algum sucesso das eleições do antigo Distrito Federal, diante da constatação de que “jamais o eleitorado operário do Brasil participou de uma campanha eleitoral nacional com força própria, como classe independente, apresentando um programa de reivindicações ditadas por seus interesses e aspirações da classe”. Aliás, nos documentos de fundação do PT, notadamente no seu Manifesto, aprovado em 10 de fevereiro de 1980, havia transcrições literais daquele produzidos pelo BOC sessenta e oito anos antes, até para desmentir alguns "petecos" quando afirmam desabridamente que foram eles os inventores da participação política dos trabalhadores e camponeses do Brasil.

Esses dois projetos políticos que até nem eram assim tão antagônicos (o PSDB de centro-esquerda e o PT de esquerda) quando surgiram por volta de 1980, sofreram consideráveis mutações político-ideológicas após assumiram a presidência da República (o PSDB por duas vezes com FHC e o PT por três vezes, com Lula e Dilma), ditadas pelas exigências de governabilidade, isto é, as alianças que tiveram de celebrar, geralmente com partidos fisiológicos e conservadores, quando não extremamente viciados e corruptos, em variadas intensidades, fizeram com que o PSDB fosse deslocado para o centro-direita e o PT para o centro, esquerda. Enfim, posto que tenham mudado de posição no espectro ideológico-político, ainda se mantém próximos. A prova disto está ainda presente nas retinas desta nação: um jovem e impetuoso Lula, líder sindical, a pedir votos nas portas de fábricas para um igualmente jovem e elegante professor universitário, Fernando Henrique Cardoso, candidato a senador por São Paulo, nos anos '80. Se querem outro ponto de contato entre esses partidos, lá vai: vários dos formuladores do "Mensalão" do PT fizeram idêntico trabalho anteriormente para o PSDB; a única diferença foi que os "mensaleiros" (culpados ou não) do PT foram para a cadeia e todos os "mensaleiros" tucanos (mesmo que claramente culpados) continuam a voar lépidos e fagueiros pelos céus destes brasis.


O embate presidencial deste ano 2014 será o sexto entre petistas e tucanos. Por enquanto, o placar está de 3 x 2 em favor dos petistas. O que interessa mesmo é qual desses brasis emergirá das urnas de 26 de outubro. Pelas chispas perfurantes como agulhas que escapam das fráguas em que se transformaram os debates e programas televisivos, é possível  antever que, hoje, são países diferentes: um que seguirá apostando no resgate da secular dívida social e no alargamento dos espaços para o exercício da cidadania e outro, o país dos tucanos, que investe na perspectiva de um desenvolvimento social, econômico, político e cultural baseado na premissa de um mercado forte e conectado ao mundo globalizado. No contexto atual, a primeira opção é menos travosa e mais segura. Por isto, é Dilma de novo. 

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